Em um momento em que o Brasil reivindica um papel protagônico na política e nas instituições internacionais que corresponda ao seu justo lugar no concerto das nações e a sua crescente relevância nas relações dos países dos vários continentes com este país-continente, e que, para tanto, se propõe a dialogar com todas elas, inclusive com aquelas que se opõem frontalmente à sua índole democrática no plano político, religioso e étnico, parece mais do que oportuno indagar o que pensa o mundo intelectual brasileiro de temas e chagas que estão na ordem do dia e obsedam os espíritos, ainda hoje, decorridos sessenta anos da Segunda Guerra Mundial, como é o Holocausto – o extermínio de milhões de seres humanos pela fúria assassina do nazifascismo। Esta é a atualidade do simpósio que Edelyn Schweidson organizou no Rio de Janeiro e que agora a editora Perspectiva publica sob o título de Memória e Cinzas। Não será exagero dizer que a palavra e o debate de professores, escritores, jornalistas e psicanalistas como Sergio Paulo Rouanet, Márcio Seligmann-Silva, Fabio Landa, Renato Lessa, Paulo Blank, Marylink Kupferberg, Eduardo Vidal, refletem a reação de uma camada formadora de opinião em nosso contexto, diante desses horrendos episódios que, como em tantas outras carnificinas assinaladas na história, marcaram a supostamente adiantadíssima, humaníssima e inteligentíssima era contemporânea. Ainda que não haja nenhuma pretensão de refletir uma unanimidade, e já dizia o velho sábio que toda unanimidade é burra, as análises aqui presentes sugerem, antes de mais nada, “que os filhotes infernais, pit bulls de um novo Holocausto, já deram início à sua temporada de caça”, como tão brilhantemente lembrou Sergio Paulo Rouanet. Mais que uma advertência, o que o leitor encontrará aqui serão as malhas finas de percepções que vão ao vivo dos fatos, dos processos e da memória do que foi a Schoá. Os oradores-ensaístas não se debruçam apenas, ao modo de Jó, sobre este passado inenarrável, mas atentam para o que permaneceu incandescente, sob as cinzas da insanidade devastadora em que seres humanos enjaularam, classificaram e exterminaram seus semelhantes, com a fúria fria de que nenhum animal seria capaz. Este é o percurso que vai das memórias às cinzas nestes textos em que, queremos crer, a voz do povo e, sem dúvida, do espírito brasileiros se fazem ouvir neste livro de levantamento, advertência e protesto.
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sexta-feira, 26 de março de 2010
sexta-feira, 19 de março de 2010
domingo, 6 de dezembro de 2009
Getúlio, Mito

Carlos Heitor Cony, com a honestidade intelectual que lhe é marcante, escreveu durante várias semanas, ao tempo em que trabalhava na revista Manchete, os capítulos daquele que viria a ser o livro Quem Matou Vargas। Na apresentação, o escritor-jornalista, que havia sido o alvo preferido do ministro do Exército do primeiro governo militar pós-64, general Arthur da Costa e Silva, que lhe moveu vários processos, levando-o inclusive à prisão, confessa a desfavorável impressão que, na mocidade, tivera de Getúlio Vargas. Na única vez em que o vira pessoalmente, “ajoelhado num suntuoso genuflexório”, tal posição física produzira-lhe juízo negativo. “Sabia que aquele homem não era católico, nem acreditava em Deus. Por que ajoelhar-se então? Por cortesia, por bajulação à Igreja?”.
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Aconteceu que era para escrever sobre Vargas e Cony pesquisou a sua infância, a sua adolescência, os seus tempos de acadêmico de direito, enfim, “todas as etapas da sua vida”. Entrevistou parentes, amigos, inimigos, adversários, pessoas que trabalharam com e contra Vargas. Leu coleções inteiras de jornais e muitos livros. Viajou quilômetros não contados e fez incontáveis anotações, longo fichário. Ao final de tudo isso, Carlos Heitor Cony, na parte introdutória de Quem Matou Vargas, conclui: “Se não fosse Getúlio Vargas, hoje eu estaria sentado na Cinelândia, junto dos homens de minha geração, tocando aquela flautinha para encantar serpentes। Turistas amáveis, de blusões coloridos, dariam gorjetas e tirariam fotografias. Esse seria mais ou menos o Brasil em que estaríamos vivendo se não tivesse ocorrido aquilo que se pode chamar de Época de Vargas. Sei que é preciso ter um pouco de audácia para afirmar isso, mas afirmado está. E a audácia vai mais longe: disse, no início, que não devia nada a Getúlio. Pensando bem, vejo que lhe devo, lhe devemos muito”.
Aconteceu que era para escrever sobre Vargas e Cony pesquisou a sua infância, a sua adolescência, os seus tempos de acadêmico de direito, enfim, “todas as etapas da sua vida”. Entrevistou parentes, amigos, inimigos, adversários, pessoas que trabalharam com e contra Vargas. Leu coleções inteiras de jornais e muitos livros. Viajou quilômetros não contados e fez incontáveis anotações, longo fichário. Ao final de tudo isso, Carlos Heitor Cony, na parte introdutória de Quem Matou Vargas, conclui: “Se não fosse Getúlio Vargas, hoje eu estaria sentado na Cinelândia, junto dos homens de minha geração, tocando aquela flautinha para encantar serpentes। Turistas amáveis, de blusões coloridos, dariam gorjetas e tirariam fotografias. Esse seria mais ou menos o Brasil em que estaríamos vivendo se não tivesse ocorrido aquilo que se pode chamar de Época de Vargas. Sei que é preciso ter um pouco de audácia para afirmar isso, mas afirmado está. E a audácia vai mais longe: disse, no início, que não devia nada a Getúlio. Pensando bem, vejo que lhe devo, lhe devemos muito”.
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À página 125, o escritor, comentando o estilo de agir do chefe do governo provisório constituído pela Revolução de 1930, não titubeia, afirma: “Nascia um político — o maior da história do Brasil”. Opinião também manifestada por Barbosa Lima Sobrinho, do alto da sabedoria e da experiência de quem viveu o século 20 inteiro em entrevistas às Páginas Amarelas da revista Veja, aos 97 anos.
O veredito favorável a Vargas, como reconhece o autor de O Ato e o Fato, exige audácia. Realmente. É da historiadora Aspásia Camargo este registro: “Para admiradores e correligionários, Vargas foi o símbolo da emancipação nacional, da criação de um Estado forte e soberano e do trabalhismo nascente. Para irredutíveis adversários, o político das manobras, maquiavélico, prepotente, o ditador e o caudilho”. Temos aí, na observação da historiadora, a tese e a antítese. Barbosa Lima Sobrinho (primeiro historiador da Revolução de 30), conhecendo singularmente todo o processo político brasileiro do século 20, e Carlos Heitor Cony, tendo com absoluta isenção mergulhado, investigativa e analiticamente, no estudo da personalidade e da atuação do notável gaúcho, apresentam, com autoridade inquestionável, a síntese. Síntese da obra fecunda e fecundante do solitário de Itu.
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À página 125, o escritor, comentando o estilo de agir do chefe do governo provisório constituído pela Revolução de 1930, não titubeia, afirma: “Nascia um político — o maior da história do Brasil”. Opinião também manifestada por Barbosa Lima Sobrinho, do alto da sabedoria e da experiência de quem viveu o século 20 inteiro em entrevistas às Páginas Amarelas da revista Veja, aos 97 anos.
O veredito favorável a Vargas, como reconhece o autor de O Ato e o Fato, exige audácia. Realmente. É da historiadora Aspásia Camargo este registro: “Para admiradores e correligionários, Vargas foi o símbolo da emancipação nacional, da criação de um Estado forte e soberano e do trabalhismo nascente. Para irredutíveis adversários, o político das manobras, maquiavélico, prepotente, o ditador e o caudilho”. Temos aí, na observação da historiadora, a tese e a antítese. Barbosa Lima Sobrinho (primeiro historiador da Revolução de 30), conhecendo singularmente todo o processo político brasileiro do século 20, e Carlos Heitor Cony, tendo com absoluta isenção mergulhado, investigativa e analiticamente, no estudo da personalidade e da atuação do notável gaúcho, apresentam, com autoridade inquestionável, a síntese. Síntese da obra fecunda e fecundante do solitário de Itu.
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EURICO BARBOSA, ex-deputado e ex-presidente do TCE, é historiador e autor, entre outros livros, de Confissões de Generais। Pertence à Academia Goiana de Letras, da qual foi presidente।
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O mito continua

Revista Época, Edição nº 327 História
Em lançamentos e reedições, os escritores se rendem à lenda e arrancam Getúlio Vargas da História para mergulhá-lo na pura ficção
Luís Antonio Giron
Getúlio Vargas rende mares de tinta, apesar de o assunto ter sido praticamente esgotado pelos acadêmicos e não haver fatos novos revelador neste cinqüentenário। No terreno das teorias conspiratórias e da ficção, porém, Vargas está saindo da História para entrar na Mitologia। Da enxurrada de lançamentos e reedições, destacam-se três títulos: o romance Getúlio, de Juremir Machado da Silva (Record, 434 págs., R$ 44,90), o ensaio Vitória na Derrota - A Morte de Getúlio Vargas (Casa da Palavra, 248 págs., R$ 39,90), do sociólogo Ronaldo Conde Aguiar, e o folhetim Quem Matou Vargas, em edição revista e aumentada (Planeta, 256 págs., R$ 37,50), de Carlos Heitor Cony.
Se o romance contém doses cavalares de pesquisa, os demais títulos, aparentemente objetivos, carregam na fantasia.Ninguém que aborda o tema resiste a especular sobre o crime da Rua Tonelero, até hoje não resolvido, e imaginar as circunstâncias do suicídio: a motivação, a carta-testamento, a conversa entre Getúlio e seu irmão, Bejo, antes do gesto final. Mesmo a célebre frase da carta-testamento - 'Saio da vida para entrar na História' - é posta em dúvida. Muitos acreditam que ela foi acrescentada depois, já que não consta do rascunho de Getúlio. Com tantos elementos, a imaginação dos escritores sobe até a estratosfera. O homem, o político e sobretudo o enigma Getúlio continuam fascinantes
'Ainda não foi escrita a grande biografia de Getúlio', reconhece Cony. 'E não serei eu a escrevê-la, pois é preciso fôlego para dar conta da documentação. Além disso, o biógrafo deverá decifrar o episódio da Tonelero.' Trata-se de um legítimo 'crime perfeito', segundo o autor, que busca resolvê-lo pela imaginação. Seu livro supõe que a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) foi responsável pela armação do atentado para derrubar o governo. 'Isso aconteceu na Guatemala e se repetiu no Chile', compara Cony. 'No Brasil, o governo americano mantinha pessoal treinado e pode ser que tenha tramado um golpe.' O texto, publicado na revista Manchete, em 1967, é deliciosamente conspiratório, cravado com fartas rajadas de ficção. Cony, de 78 anos, confessa que não gostava de Getúlio na juventude, mas mudou de opinião: 'Sem ele, o Brasil seria uma nação atrasada'.
Aguiar, sessentão, ex-petista e professor da Universidade de Brasília, admira Getúlio desde a infância. Acha que nesse assunto a imaginação é incontrolável, mesmo para um cientista social como ele. 'Meu texto se divide em três blocos', diz. 'Os primeiros capítulos são reportagens, depois pulo para a análise. E o estilo que usei no último é a ópera.' O livro exibe uma empolgante mistura de documentação e suposição. 'É possível que o Império Americano, as multinacionais e a direita tenham tramado tudo', viaja. 'Não há crise política que resista a um cadáver moço, e fardado. Vaz, jovem, casado e pai de quatro criancinhas, cabia no figurino.' Em sua análise, Getúlio foi uma das muitas vítimas do imperialismo na América Latina. 'Mas fez do suicídio um triunfo.'
Machado da Silva tem 42 anos e não viveu a era Vargas. Mesmo assim, ambicionou penetrar na consciência do ditador. Não descobre nada de novo, mas jura que seu projeto biográfico não fracassou: 'Fiz uma opção estética. Sou um romancista em busca de bons assuntos'. Sem assumir posição, o romance dá voz a várias interpretações por meio de personagens reais e de ficção. O fio condutor lembra Conversa na Catedral, do peruano Mario Vargas Llosa: Tércio, ex-militante comunista, trava um diálogo com Angel, namorada da ex-mulher de Bejo (atenção: é um 'romance pós-moderno', como diz o autor, o que significa que não tem compromisso com a verdade) no Catete. 'Getúlio foi um labirinto dentro do labirinto', supõe o escritor. O leitor se sente assim mesmo, desorientado pela montanha de hipóteses e visões contraditórias. Ali, entre cenas escatológicas e digressões, os seres de ficção são frágeis e soterrados pelos de verdade. Machado da Silva entrevistou 72 sobreviventes. Faz desfilar figuras como a ex-vedete Virginia Lane, que jura até hoje, aos 82 anos, ter sido amante de Getúlio e vivido temporadas na fazenda dos Vargas. Gegê, como Virginia o chama, teria sido assassinado. O autor se ocupou no passado em demolir os mitos sulistas Érico Veríssimo e Mário Quintana, mas sucumbiu aos encantos do caudilho. 'Afinal, sou gaúcho, de Santana do Livramento', diverte-se, referindo-se às raízes fronteiriças comuns com seu herói. 'Iniciei vendo-o como ditador. Mas passei a simpatizar com ele. Apesar de tudo, Getúlio fez mais pelo Brasil que Lacerda, polemista genial.' O narrador se deixou tragar pela lenda. E o leitor flutua em dúvidas. ''Ele foi um labirinto dentro do labirinto'', diz o romancistaTornou-se consenso afirmar que Getúlio produziu o cadáver mais ativo da História brasileira। O amuleto necrofílico conseguiu atrasar o golpe militar em dez anos e, apesar de o ciclo do trabalhismo ter-se encerrado, segue produzindo fumaças fantásticas. 'Foi ditador, revolucionário e estadista', observa Cony. Aguiar dispara: 'Com todos os defeitos, ele tinha um projeto para o Brasil'. Getúlio ainda é uma esfinge devoradora.
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